ÉRAMOS JOVENS

sexta-feira, 15 de maio de 2015

'Alguém que queira CUIDAR'

(O que vai ficar na fotografia, são os laços invisíveis que havia - Leoni)
     Cuidar e ser cuidado é coisa séria, não penso que seja algo para se falar a qualquer pessoa... quando você diz isso, TEM QUE HONRAR. Ou então... morra! Né?
Olas pessoas, tenho muito a falar... mas tempo anda bem curtinho, combinando direitinho com meu salário... 
Aos cuidadores de idosos com Alzheimer ou demência, qualquer que seja ela:
     Tentem rir... fazendo as contas dos meus 15 anos de convivência direta, vi que somei mais risos do que tristeza, frustração e pessimismo. Quando leio as vidas, as vivencias, as experiências tão próximas à minha, reconheço-me em cada um e penso o quão bom seria ter esse dispositivo na época da minha rainha! Ai lembrei que no meio do caminho, já havia, quem não tinha tempo era eu...  e mais: o pouco tempo que eu tinha livre, queria ficar com ela, aproveitar, já que a morte é certa para todos nós, mas com ela já tinha um tempo previsto, e ainda alongamos esse tempo em 5 lindos anos!
     Houve brigas? Muitas... mas como todo pai e mãe, sempre longe do nosso bebê, para que ela não sentisse a energia pesada!
     Problemas financeiros? Nome bonito para “falta de grana”. Um atrás do outro, mas o conforto PARA ELA não deixou de existir um dia sequer, a construção de uma casa totalmente adaptada para um idoso foi nossa maior prova de fogo e prova MATERIAL do quanto a amamos, nada nem ninguém tirou nosso foco. Dois anos depois de sua partida, os resquícios e respingos das dívidas estão bem aqui na minha cara, mas ..... E DAÍ? Se existe uma pessoa que deita e dorme tranquilamente sou eu, e desculpem a falsa modéstia, deito, durmo, levanto ORGULHOSÍSSIMA !
     O ‘autocuidado’ (que não sei se é junto, separado, divorciado, com ou sem hífen), é essencial para você que tem alguém com Alzheimer! Tente viajar... em minha casa, viajávamos NO MÍNIMO uma vez a cada dois meses... se eu ia só? Não! Como você deixaria um filho dependente e faria suas malas para ir sem ele? Eu ia com minha mãe. Era uma mala de fraldas, uma de roupas de frio, outra de roupas de calor, uma de remédio, e bora! Aeroporto? Vixe, sempre pagamos o excesso; ué... fazer o que? Paga aí! Depois a gente vê! Kkkk No lugar, fosse um chalé em Aguas de Lindóia ou num resort em Aracajú, descansava eu do trabalho, descansava quem me ajudava e além de tudo, passávamos TODO O TEMPO COM MAMÃE, justamente para depois não dizer como ouço de outras pessoas por aí: “EU DEVIA TER ME DADO MAIS TEMPO”
     Evidente que nem todos tem um trabalho como o meu, que possa se afastar sem perder o vínculo. Se eu pensasse em aposentadoria, já ia dever 5 a 6 anos de afastamento... e? Trabalhar esse tempo teria tirado hoje minha razão de viver...  ainda quero um dia, sair por ai apoiando em palestras, grupos, as pessoas, que como nós, vivem a dor e a delícia de cuidar DE VERDADE de alguém! E não é o cuidado OBRIGATÓRIO, pois não são nossos filhos, que optamos por ter ou não! São pais, mães, irmãos, tios, esposos, esposas, enfim...
CUIDADOR , entenda que você é um privilegiado: um dia alguém cuidou de você, e agora você cuida por amar, por ‘ter cuidado’ com alguém que não planejou isso, que não escolheu, que não sabe nem quem é ele mesmo! Você já parou para pensar nisso? 
     Você, nos momentos de lágrimas escondidas, no desespero de ver ‘as estranhezas’ praticadas por essa pessoa, já se colocou no lugar? 
     E se fosse você a não se reconhecer no espelho? 
     E se fosse você, a levantar e não saber mais onde é o banheiro, a mesa e nem para que servem. 
     E se fosse você que na hora de comer, não sabe mais para que serve o talher, o prato, a própria comida? 
     E se fosse você a depender de alguém para trocar sua fralda, tirar você do incomodo do xixi, lhe dar o banho,  ficar com você até na hora do NÚMERO 2, ali, esperando pra você não fugir com as calças nos pés, pois você não tem a menor noção do que seja isso? 
     E se você tivesse que tomar um remédio e não tem quem o colocasse em sua boca?  
     E a sede? Eu amo agua, e se não tiver quem coloque uma aguinha na nossa boca??  Você não gostaria de um abraço, mesmo sem saber exatamente quem é aquela pessoa??? Será que você não se sentiria melhor, protegido,  recebendo um sorriso, um abraço, um mimo, um beijo??
     Pensar assim, muitas vezes me fez levantar do sofá, do computador, sair do trabalho fora da hora para ver MINHA RAINHA, e mesmo com alguém me auxiliando, eu pensava: será que trocaram a fralda? Será que deram o remédio? Então eu ligava para casa, e O MEU ABRAÇO? O abraço da filha dela? A empregada poderia dar? Meu irmão poderia dar? Não... eles dariam o abraço DELES! Eu tinha que vir pra casa e dar O MEU!

     Então, temos que exercitar nos  transferirmos um pouco (em meio a contas, remédios, internações, rotina girada a 360º), faz com que nosso cérebro (ainda sem o terremoto do Alzheimer), passe as informações para os outros órgãos e a gente simplesmente CONTINUA ... 
    A MINHA certeza: CADA FRAÇÃO DE SEGUNDO VALEU POR TODA UMA VIDA.
BEIJOS.

Um comentário:

Evelyn Galvao disse...

Lindo e comovente, Gil!!!
Eu amei tanto q até chorei, muito emocionante!!! Bjos